Imigração Búlgara para o Brasil como Consequência do Regime Comunista (1946-1991): Memória e Trajetória de Zdravko Damianof
Bulgarian Immigration to Brazil as a Consequence of the Communist Regime (1946-1991): Memory and the Trajectory of Zdravko Damianof

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Publicação / Livro (fevereiro 2026)
Publication / Book (february 2026)

Memorial de Zdravko Damianof (1928-1987)

Zdravko Damianof Memorial (1928-1987)​

Página dedicada à memória de Zdravko Damianof (Zdravko Kostadinov Damyanov, nascimento em 6 de setembro de 1928, na localidade de Belashtitsa, município de Rodopi, região de Plovdiv – Bulgária e falecimento em 21 de junho de 1987 em São Paulo/SP – Brasil), esta página apresenta fragmentos de uma trajetória marcada por imigração, trabalho, família e permanência. O conteúdo tem como base pesquisa histórica e acervo familiar, reunindo documentos, imagens e referências que ajudam a compreender sua experiência entre a Bulgária e o Brasil.

This page is dedicated to the memory of Zdravko Damianof (Zdravko Kostadinov Damyanov, born September 6, 1928, in the village of Belashtitsa, Rodopi Municipality, Plovdiv Region, Bulgaria, and passed away June 21, 1987, in São Paulo, SP, Brazil); it presents fragments of a life shaped by migration, work, family, and permanence. Based on historical research and a family archive, it brings together documents, images, and references that help illuminate his experience between Bulgaria and Brazil.

Relatórios da CIA com depoimentos e informações que relatam o comunismo na Bulgária e a fuga realizada por Zdravko e seus companheiros entre 06 de maio de 1951 (deserção) e 19 de junho de 1951 (chegada na Grécia):
CIA reports containing testimony and information on communism in Bulgaria and on the escape carried out by Zdravko and his companions between May 6, 1951 (desertion) and June 19, 1951 (arrival in Greece):

  1. 104-10071-10354
  2. 104-10178-10164
  3. 104-10178-10165
  4. 104-10178-10166
  5. 104-10178-10167
  6. 104-10178-10168
  7. 104-10178-10189_(November_9,_2017_Release)
  8. 104-10255-10208

Resumo dos relatórios
Os documentos reunidos nesta seção apresentam, sob diferentes recortes, o contexto político e militar da Bulgária comunista e a fuga de Zdravko Damianof com outros companheiros em 1951. Parte dos relatórios descreve a deserção de três Trudovaks — entre eles Zdravko —, o apoio recebido de contatos civis e clandestinos na região de Plovdiv, o percurso até a fronteira e a chegada do grupo à Grécia em junho de 1951. Outros registros identificam nominalmente os sete refugiados envolvidos, detalham interrogatórios realizados após a fuga e apontam o interesse das autoridades em verificar suas histórias, conexões e possível aproveitamento posterior.

Há também relatórios que ajudam a compreender a experiência dos Trudovaks na Bulgária daquele período. Eles mostram que Zdravko, Spas Raikin e Stefan Peltekov haviam trabalhado em obras ligadas ao aeródromo de Bezmer, em regime de serviço militar laboral, e trazem informações sobre a organização desses destacamentos, as funções exercidas e o contexto de vigilância e coerção associado ao sistema. Em conjunto, os documentos não apenas confirmam a fuga de Zdravko e seus companheiros, mas também ajudam a iluminar as condições políticas, sociais e militares que marcaram aquela trajetória.

 

Summary of the reports
The documents gathered in this section present, from different perspectives, the political and military context of communist Bulgaria and the escape of Zdravko Damianof and his companions in 1951. Some of the reports describe the desertion of three Trudovaks — including Zdravko —, the support they received from civilian and clandestine contacts in the Plovdiv region, their route to the border, and the group’s arrival in Greece in June 1951. Other records identify by name the seven refugees involved, detail the interrogations carried out after the escape, and indicate the authorities’ interest in verifying their stories, connections, and possible later use.

There are also reports that help clarify the experience of the Trudovaks in Bulgaria during that period. They show that Zdravko, Spas Raikin, and Stefan Peltekov had worked on projects related to the Bezmer airfield under a system of military labor service, and they provide information on the organization of these units, the roles assigned to them, and the broader context of surveillance and coercion surrounding the system. Taken together, these documents not only confirm the escape of Zdravko and his companions, but also help illuminate the political, social, and military conditions that shaped that trajectory.

O que os relatórios revelam sobre Zdravko Damianof
Os relatórios consultados permitem delinear, com maior nitidez, aspectos centrais da trajetória de Zdravko Damianof no contexto da Bulgária comunista. Neles, Zdravko aparece identificado como Zdravko Kostadinov Damyanov, nascido em 6 de setembro de 1928, em Belashtitsa, na região de Plovdiv, e vinculado a uma família rural da localidade. Um dos documentos menciona seu núcleo familiar direto, indicando que, antes da incorporação ao serviço militar laboral, ele viveu com os pais e irmãos e passou um período trabalhando na propriedade da família. Fonte: 104-10178-10168.

Os relatórios mostram também que Zdravko foi incorporado aos Trudovaks, sistema de trabalho militarizado ao qual eram submetidos muitos jovens búlgaros, e que atuou em unidades ligadas à construção e manutenção de aeródromos. Seu nome aparece associado ao aeródromo de Bezmer e, posteriormente, à transferência para outra unidade, contexto em que se aproximou de Spas Todorov Raikin e, depois, de Stefan Peltekov. É nesse ambiente de vigilância, disciplina compulsória e trabalho forçado que começa a se formar o núcleo da fuga que mudaria sua trajetória. Fonte: 104-10178-10164 e 104-10178-10168.

Em um dos principais documentos sobre a evasão do grupo, Zdravko surge como um dos três Trudovaks que decidiram escapar para a Grécia, ao lado de Stefan Peltekov e Spas Raikin. Os relatórios indicam que a fuga não foi um ato isolado, mas uma operação construída com apoio de contatos civis e clandestinos na região de Plovdiv. Outros nomes aparecem como colaboradores e intermediários, compondo uma rede de auxílio que envolvia familiares, conhecidos e opositores do regime. Fonte: 104-10071-10354.

Há ainda um dado especialmente significativo: antes de aderirem ao plano de fuga para a Grécia, Zdravko e Spas Raikin teriam considerado a possibilidade de escapar para a Turquia, por ser o país não comunista mais próximo. A mudança de direção teria ocorrido quando o grupo passou a confiar na rede de apoio articulada por Stefan Peltekov. Os documentos sugerem, assim, não apenas a urgência da deserção, mas também a precariedade, a incerteza e o risco constante que marcaram esse deslocamento. Fonte: 104-10071-10354.

Quanto à cronologia, os relatórios indicam que o grupo deixou sua unidade no início de maio de 1951 e passou semanas escondido, deslocando-se entre áreas montanhosas e pontos de apoio até alcançar a Grécia em junho de 1951. Algumas fontes apontam 19 de junho de 1951 como data de entrada no território grego, enquanto outras registram 21 de junho de 1951 como a chegada dos sete refugiados. Essa pequena variação documental não altera o sentido geral do episódio, mas revela como o acontecimento foi registrado sob perspectivas distintas. Fonte: 104-10071-10354 e 104-10178-10168.

Após a fuga, Zdravko e os demais companheiros foram submetidos a interrogatórios individuais, nos quais suas versões foram comparadas e verificadas. Os documentos deixam claro que as autoridades buscavam confirmar a consistência dos relatos, compreender suas conexões e afastar a hipótese de infiltração por agentes do regime búlgaro. Nesse sentido, Zdravko não aparece apenas como fugitivo, mas também como testemunha de um sistema político e militar que interessava diretamente às instâncias de inteligência do período. Fonte: 104-10071-10354.

Os relatórios revelam ainda que Zdravko foi uma das fontes utilizadas para descrever a construção do aeródromo de Bezmer e as condições em que os Trudovaks atuavam nessas frentes de trabalho. Seu nome surge, portanto, ligado tanto à experiência da deserção quanto à produção de informações sobre a estrutura militarizada da Bulgária comunista. Essa dupla presença — como sobrevivente e como testemunha — confere especial relevância documental à sua trajetória. Fonte: 104-10178-10168.

Tomados em conjunto, esses registros permitem compreender Zdravko Damianof como mais do que um nome dentro de uma lista de refugiados. Eles o situam como parte de uma geração submetida ao controle autoritário do Estado, ao trabalho militar compulsório e à repressão política, mas também como sujeito de decisão, deslocamento e resistência. Ao iluminar fragmentos concretos de sua vida, os relatórios ajudam a restituir espessura histórica à memória de sua trajetória entre a Bulgária e o exílio.

 

What the reports reveal about Zdravko Damianof

The reports consulted make it possible to trace, with greater clarity, key aspects of Zdravko Damianof’s trajectory within the context of communist Bulgaria. In them, Zdravko appears identified as Zdravko Kostadinov Damyanov, born on September 6, 1928, in Belashtitsa, in the Plovdiv region, and connected to a rural family from that locality. One of the documents mentions his immediate family, indicating that, before being incorporated into military labor service, he lived with his parents and siblings and spent a period working on the family property. Source: 104-10178-10168.

The reports also show that Zdravko was incorporated into the Trudovaks, a militarized labor system to which many young Bulgarians were subjected, and that he served in units linked to the construction and maintenance of airfields. His name appears associated with the Bezmer airfield and, later, with a transfer to another unit, in a context in which he grew close to Spas Todorov Raikin and later to Stefan Peltekov. It is within this environment of surveillance, compulsory discipline, and forced labor that the core of the escape that would change his life begins to take shape. Source: 104-10178-10164 and 104-10178-10168.

In one of the main documents concerning the group’s escape, Zdravko appears as one of the three Trudovaks who decided to flee to Greece, alongside Stefan Peltekov and Spas Raikin. The reports indicate that the escape was not an isolated act, but an operation built with the support of civilian and clandestine contacts in the Plovdiv region. Other names appear as collaborators and intermediaries, forming a network of assistance involving relatives, acquaintances, and opponents of the regime. Source: 104-10071-10354.

There is also a particularly significant detail: before committing to the plan to flee to Greece, Zdravko and Spas Raikin appear to have considered the possibility of escaping to Turkey, as it was the nearest non-communist country. The change of direction seems to have occurred when the group came to trust the support network organized by Stefan Peltekov. The documents thus suggest not only the urgency of the desertion, but also the precariousness, uncertainty, and constant danger that marked this displacement. Source: 104-10071-10354.

As for the chronology, the reports indicate that the group left its unit in early May 1951 and spent weeks in hiding, moving between mountainous areas and support points until reaching Greece in June 1951. Some sources point to June 19, 1951, as the date of entry into Greek territory, while others record June 21, 1951, as the arrival date of the seven refugees. This small documentary variation does not alter the overall meaning of the episode, but reveals how the event was recorded from different perspectives. Source: 104-10071-10354 and 104-10178-10168.

After the escape, Zdravko and his companions were subjected to individual interrogations, during which their accounts were compared and verified. The documents make clear that the authorities sought to confirm the consistency of their stories, understand their connections, and rule out the possibility of infiltration by agents of the Bulgarian regime. In this sense, Zdravko appears not only as a fugitive, but also as a witness to a political and military system that was of direct interest to the intelligence authorities of the period. Source: 104-10071-10354.

The reports further reveal that Zdravko was one of the sources used to describe the construction of the Bezmer airfield and the conditions under which the Trudovaks worked on these labor fronts. His name therefore appears linked both to the experience of desertion and to the production of information about the militarized structure of communist Bulgaria. This dual presence — as both survivor and witness — gives particular documentary significance to his trajectory. Source: 104-10178-10168.

Taken together, these records make it possible to understand Zdravko Damianof as more than simply a name on a list of refugees. They place him as part of a generation subjected to authoritarian state control, compulsory military labor, and political repression, but also as a subject of decision, displacement, and resistance. By illuminating concrete fragments of his life, the reports help restore historical depth to the memory of his trajectory between Bulgaria and exile.

Outros relatórios que detalham os trabalhos dos Trudovaks (classe militar do antigo exército comunista Búlgaro ao qual Zdravko foi submetido e desertou) e contam informações sociais e políticas daquela época (1950, 1960, 1970, 1980):
Other reports detailing the work of the Trudovaks (a military labor corps of the former Bulgarian communist army to which Zdravko was assigned and from which he deserted) and providing social and political information about that period (1950s, 1960s, 1970s, and 1980s):

  1. CIA-RDP79-01009A001200060006-7
  2. CIA-RDP80-00809A000700150029-2
  3. CIA-RDP80-00810A000600070005-3
  4. CIA-RDP80-00810A001200840005-1
  5. CIA-RDP80-00810A002100900001-8
  6. CIA-RDP80-00810A003700170003-0
  7. CIA-RDP80-00810A005600890012-3
  8. CIA-RDP80-00810A006200790007-3
  9. CIA-RDP80-00810A006800480009-9
  10. CIA-RDP81-01043R004000220008-1
  11. CIA-RDP82-00457R004800280006-0
  12. CIA-RDP82-00457R007700170003-3
  13. CIA-RDP82-00457R010600420002-0
  14. CIA-RDP82-00457R011700210009-4
  15. CIA-RDP82-00457R014600300005-6
  16. CIA-RDP82-00457R016100050006-6
  17. CIA-RDP83-00415R007500200001-5
  18. CIA-RDP83-00415R012600190002-9
  19. CIA-RDP83-00415R012700120005-2
  20. CIA-RDP84S00895R000200110002-5
  21. CIA-RDP85T01058R000202420001-6
  22. CIA-RDP86T01017R000404460001-2
  23. 1951-05-17b-A
  24. DOCHEV, IVAN VOL. 1_0083
  25. CIA-RDP86T00608R000100240038-5
  26. CIA-RDP88-00434R000400900001-3

Resumo dos relatórios
Os relatórios reunidos nesta seção ajudam a contextualizar a Bulgária sob o regime comunista a partir de diferentes temas, como organização territorial, estrutura militar, forças navais, aeródromos, trabalho compulsório militarizado, condições políticas internas e políticas de repressão social.

Em conjunto, eles mostram um país fortemente centralizado, com influência soviética marcante sobre o Estado, as forças armadas e a vida social. Parte dos documentos se concentra em aspectos estratégicos e militares, especialmente na organização da Marinha búlgara, na estrutura de comando e no funcionamento de unidades e instalações ligadas à defesa. Outros relatórios tratam de aeródromos, obras de infraestrutura e locais de interesse militar, o que ajuda a compreender o ambiente em que muitos jovens búlgaros, incluindo os Trudovaks, eram incorporados ao trabalho e ao serviço sob rígido controle estatal.

Há também documentos que evidenciam dimensões étnicas, diplomáticas e humanitárias do período final do regime, como a campanha de assimilação forçada contra a minoria turca e as tentativas do governo búlgaro de melhorar suas relações com os Estados Unidos na década de 1980. Esses materiais mostram que, para além do controle militar e político, o regime atuava também por meio de repressão cultural, gestão autoritária das minorias e estratégias de reposicionamento internacional.

Tomados em conjunto, esses materiais não contam apenas episódios isolados: eles ajudam a reconstruir o pano de fundo político, social e militar da Bulgária nas décadas centrais do século XX. Para esta pesquisa, são importantes porque ampliam a compreensão do contexto que cercou trajetórias como a de Zdravko Damianof e de outros búlgaros que deixaram o país em busca de liberdade e reconstrução de vida.

 

Summary of the reports
The reports gathered in this section help contextualize Bulgaria under the communist regime through a range of themes, including territorial organization, military structure, naval forces, airfields, militarized forced labor, internal political conditions, and policies of social repression. Taken together, they portray a highly centralized country marked by strong Soviet influence over the state, the armed forces, and social life.

Some of the documents focus on strategic and military aspects, particularly the organization of the Bulgarian Navy, its command structure, and the operation of units and installations linked to national defense. Other reports address airfields, infrastructure works, and sites of military interest, helping to clarify the environment in which many young Bulgarians, including the Trudovaks, were drawn into labor and service under strict state control.

There are also documents that highlight the ethnic, diplomatic, and humanitarian dimensions of the regime’s final decades, such as the campaign of forced assimilation against the Turkish minority and the Bulgarian government’s attempts to improve relations with the United States in the 1980s. These materials show that, beyond military and political control, the regime also operated through cultural repression, authoritarian management of minorities, and strategies of international repositioning.

Taken as a whole, these materials do more than document isolated episodes: they help reconstruct the political, social, and military background of Bulgaria during the central decades of the twentieth century. For this research, they are important because they broaden the understanding of the context that surrounded trajectories such as that of Zdravko Damianof and of other Bulgarians who left the country in search of freedom and the rebuilding of life.

Os relatórios aqui reunidos encontram-se atualmente indexados em repositórios públicos oficiais dos Estados Unidos, como o National Archives e a CIA Reading Room, figurando tanto em coleções documentais associadas aos JFK Assassination Records quanto em acervos mais amplos de documentos históricos de inteligência desclassificados.

The reports gathered here are currently indexed in official public repositories of the United States, such as the National Archives and the CIA Reading Room, appearing both in documentary collections associated with the JFK Assassination Records and in broader holdings of declassified historical intelligence records.

Livro de Spas Todorov Raikin – um dos fugitivos búlgaros, amigo de Zdravko:
Book by Spas Todorov Raikin – one of the Bulgarian escapees and a friend of Zdravko:

Rebel with a Just Cause: A Political Journey against the Winds of the 20th Century

Na página 21 do livro consta a seguinte carta de Yordan Damyanov (irmão de Zdravko):
On page 21 of the book, the following letter from Yordan Damyanov (Zdravko’s brother) appears:

Yordan K. Damianov
K. Fotinov 2
Haskovo, Bulgária

23 de outubro de 1999

Prezado Sr. Raikin,

Agradeço-lhe, do fundo do meu coração, pela carta e pelas recordações anexadas sobre sua fuga do campo de trudovaks para o mundo livre, em 1951.

Em sua carta, o senhor escreveu muito pouco sobre si mesmo e nada sobre como vive agora e quais são suas intenções de visitar sua pátria, a Bulgária, para que pudéssemos nos ver aqui, em nosso país há tanto tempo sofredor. Se o senhor vier à Bulgária, mesmo que por pouco tempo, por favor me avise, para que possamos nos encontrar e conversar como irmãos. O senhor não escreveu nada sobre meu irmão, Zdravko — ele está vivo? O senhor viu seu nome em algum registro, caso tenha falecido? Eu ainda acredito que ele esteja vivo. Eu tinha apenas 14 anos quando ele nos deixou, em 1951, em nossa pátria escravizada.

Em sua carta, o senhor me pergunta que tipo de jovem era meu irmão Zdravko e qual era o seu contexto familiar.

Ouvi dizer, quando ainda era criança, que meu bisavô, Damian, era um homem abastado, com muitas terras, e que havia sido continuamente eleito prefeito da aldeia de Belashtitsa. Não me lembro de nada sobre meu avô Georgi, pai de meu pai, Konstantin.

Lembro que, antes de 9 de setembro de 1944, meu pai tinha seu próprio açougue, e seu irmão, meu tio, tinha um pequeno bar. Lembro que, depois de 9 de setembro, tudo foi nacionalizado e a família caiu na pobreza. Apontaram uma arma para a cabeça dele no templo, mas não o mataram. Ele ficou abatido, desenvolveu uma doença grave, seu corpo escureceu como carvão, e morreu. Minha mãe tinha três irmãos que foram fuzilados depois de 9 de setembro. Até hoje não sabemos onde estão seus túmulos. Lembro-me de como eles foram desfilados pela aldeia algemados.

A diferença de idade entre mim e Zdravko era considerável, mas, tanto quanto me lembro, ele era um jovem muito forte e bonito. Estava sendo expulso da escola. A Segurança do Estado o vigiava; ele foi preso em muitas ocasiões e espancado até quase a morte. Nosso povo cobria seu corpo preto e azul com peles frescas para salvá-lo. Ele costumava escrever poemas e recitá-los. Muito tempo depois de seu desaparecimento, os jovens da aldeia compunham canções sobre ele e choravam por ele.

Quando Zdravko já não estava mais entre nós, o povo de Belashtitsa lamentou sua ausência e criou muitas lendas a seu respeito. Tão atormentada por ele, minha mãe morreu muito cedo. Eu e meus outros quatro irmãos e irmãs ficamos órfãos. Agora me lembro de que, depois de sua fuga, um general militar veio à nossa casa perguntando a meu pai onde estava Zdravko. Meu pai o enfrentou com acusações, exigindo que lhe devolvesse o filho. “Eu o entreguei para servir a vocês, agora o quero de volta.” Foi assim que terminou essa horrível visita do general à nossa casa em Belashtitsa. Lembro-me de como nossa casa ficou cercada por homens armados com fuzis engatilhados e granadas, de modo que nem um pássaro poderia entrar ou sair. Isso continuou por muito tempo. Os pais de minha mãe viviam na aldeia de Novosel, a cerca de seis quilômetros de Belashtitsa. Quando o senhor estava na montanha, meu irmão Zdravko havia ido até a avó Todorka buscar comida. Ela lhe deu, mas, no caminho de volta, ele caiu numa emboscada e salvou-se por milagre. Na manhã seguinte, a avó Todorka foi presa e espancada até a morte. Da mesma forma, meu avô morreu por causa dos espancamentos… Foi assim que destruíram nossa família.

Em 1951, eu estava no primeiro ano da Escola de Comércio em Plovdiv. Durante as férias de verão, trabalhei numa fábrica de tijolos. Lá eu empurrava uma vagoneta de meia tonelada durante dezesseis horas por dia, para ganhar dinheiro para a escola e ajudar minha mãe com alguns levs. Ela trabalhava na fazenda do kolkhoz, recebendo 20 centavos (moeda búlgara) por dia. Foi assim que passei minha infância e adolescência. Depois que terminei a escola, também fui recrutado como trudovak. Dia após dia cavávamos canais com picaretas e pás. Muitos jovens do nosso pelotão se jogavam dos prédios no chão e ali se matavam. Todas as noites, por volta de 1h da madrugada, eu era acordado e levado para interrogatório pelo oficial político. Ele me mantinha ali até as 4h da manhã, uma hora antes de soar o apito para irmos trabalhar. Nossos sofrimentos como trudovaks não foram menores do que os seus em Bezmer e Balchik. Depois da sua fuga, as fronteiras foram fortemente fortificadas, com tecnologia de sinalização, de modo que nem um pássaro podia sobrevoá-las. A partir de então, todas as fugas da Bulgária comunista cessaram.

Embora eu tenha me formado na Escola de Comércio com nota máxima (A), não me foi permitido continuar meus estudos. Meu desejo de seguir estudando evaporou. Fui submetido a perseguições semelhantes às de Zdravko. Isso me forçou a fugir de Plovdiv e me estabelecer como um estranho em Haskovo, onde estou até hoje. Depois de longa espera, vinte anos mais tarde, entrei no Instituto de Varna e me formei lá. Depois disso, até hoje, trabalhei como funcionário da área financeira.

O senhor pergunta em sua carta o que aconteceu conosco depois da sua fuga. Nada de bom. Fomos perseguidos em toda parte. Não nos permitiam ocupar empregos adequados, exceto nas pedreiras para quebrar pedra em cascalho ou outros trabalhos pesados e mal pagos. Fomos declarados “inimigos do povo”. Também torturaram nossos filhos. Sua fuga da tirania comunista trouxe salvação para o senhor, e opressão para nós. Pelo fato de o senhor ter escapado de suas mãos, eles despejaram sua ira sobre nós. É impossível descrever isso em palavras. Quem não experimentou isso na própria pele não pode compreender.

Depois de 45 anos, em 10 de novembro de 1989, ocorreu uma revolução palaciana. Desde então, nossos revolucionários, que na realidade são pessoas do Partido Comunista Búlgaro, nunca se lembraram de vocês, os refugiados do paraíso comunista, nem de nós, que sofremos como culpados por sua transformação em “traidores do povo”, por terem deixado a Bulgária. A nomenklatura vermelha da noite para o dia transformou-se em capitalistas e retirou do país tudo o que pôde. Deixaram o povo morrer de fome e viver na miséria. Já se passaram dez anos de roubos, e nem sequer houve um único condenado pelos tribunais. O senhor está longe de nós, então como poderia nos ajudar?

Quanto a nós, apenas o sofrimento permaneceu, agora como antes. Se meu irmão Zdravko não tivesse escapado, nós que ficamos para trás não teríamos sido marcados como “parentes de emigrante no Ocidente”. Meus estudos não teriam sido adiados por vinte anos e não teríamos ficado órfãos. Mas há coisas que o homem sozinho não pode resolver. É o DESTINO que decide essas coisas. Foi isso o que aconteceu com o senhor e conosco.

Acho que nesta carta fui exaustivo e satisfiz seu desejo de que eu lhe escrevesse, numa linguagem comum, sobre os acontecimentos que vivemos e que nos afligiram depois da sua fuga.

Fico feliz que agora o senhor esteja bem. O senhor se tornou professor. Muito provavelmente vive uma vida melhor e mais pacífica do que a que vivemos aqui. Estou triste porque nada sabemos de substancial sobre Zdravko. Não consigo aceitar que ele não esteja entre nós, entre os vivos, que tenha partido tão jovem deste mundo — longe de parentes e amigos. Todos nós aqui o amávamos imensamente e continuamos a amá-lo, embora tenhamos vivido por muitas décadas na separação e na escuridão. Por favor, escreva-me o mais detalhadamente possível sobre Zdravko. Tenho o endereço de seu filho Karlos, em São Paulo — Brasil, de modo que, se o senhor desejar, poderia escrever-lhe e compartilhar com ele o fato de que estamos trocando cartas — comigo, seu tio Yordan. Seu endereço é… Escreva-lhe também em meu nome e dê-lhe meu endereço… Esperarei ansiosamente por sua resposta. Com os melhores cumprimentos para o senhor e sua família.

Yordan Damianov.

Escrevi de volta ao Sr. Damianov dizendo que publicaria sua carta em minhas Memórias. Trata-se de um documento inestimável dos acontecimentos que discuto neste livro e de um testemunho do tempo em que vivemos. Escrevi ao filho de Zdravko e estou aguardando uma resposta, se ele estiver vivo no Brasil. Continuarei reunindo informações sobre Zdravko no Brasil e tentando aliviar a dor no coração de seu irmão.

O texto publicado no blog de Stoyko Parov reproduz artigo assinado pelo Prof. Dr. Dinyu Sharlanov, historiador dedicado ao estudo da repressão comunista e da resistência anticomunista na Bulgária. Com base em documentação dos serviços de segurança do Estado, o artigo examina o movimento dos goryani e registra que, em junho de 1951, um grupo atuante na região de Plovdiv e Asenovgrad foi formado por Spas Todorov Raikin, Stefan Petrov Peltekov e Zdravko Kostadinov Damyanov, identificado como natural de Belasitsa, Plovdiv. A fonte informa ainda que os três eram fugitivos ligados ao sistema dos trudovaks e haviam escapado sob orientação de Vasil Lazarov, dirigente de uma organização clandestina anticomunista.

The text published on Stoyko Parov’s blog reproduces an article signed by Prof. Dr. Dinyu Sharlanov, a historian dedicated to the study of communist repression and anti-communist resistance in Bulgaria. Based on documentation from the State Security services, the article examines the goryani movement and records that, in June 1951, a group active in the Plovdiv and Asenovgrad region was formed by Spas Todorov Raikin, Stefan Petrov Peltekov, and Zdravko Kostadinov Damyanov, identified as being from Belashtitsa, Plovdiv. The source further states that the three were fugitives linked to the trudovak system and had escaped under the guidance of Vasil Lazarov, a leader of a clandestine anti-communist organization.

Versão original (em búlgaro)
Original version (in Bulgarian)

Versão traduzida para o português
Portuguese translation

The third squad was formed in June 1951 and moved to the area of the villages of Markovo, Galabovo, and Sitovo, in the district of Plovdiv, and around the village of Dobralak, in the Asenovgrad region. A report from the State Security services states: “The group of bandits was formed at the beginning of June of this year by the fugitive laborers Spas Todorov Raikin, from the village of Zelenikovo, Plovdiv region, Stefan Petrov Peltekov, from the village of Brani Pole, Plovdiv region, and Zdravko Kostadinov Damyanov, from the village of Belashtitsa, Plovdiv region. The three escaped under the instructions of Vasil Lazarov, a sergeant from Plovdiv, one of the leaders of the illegal fascist organization ‘I Am Bulgarian,’ which directed the group. Later, Petar and Ivan St. Slavovi, from the village of Markovo, Plovdiv region, and the brothers Petar and Boris Nikolovi Petlekovi, from the village of Brani Pole, joined the band. The exact location of the band was not established, nor was the organizational structure within the group itself. All of the individuals came from poor and middle-class families and, for political reasons, were ‘legionaries’ and members of the N. Petkovist movement. To combat this gang, a unit was assembled consisting of the head of Department XII and two operatives under the leadership of Department Chief Sǎo Mitev.”

Resumo do artigo de Dinyu Sharlanov
O artigo de Dinyu Sharlanov analisa a resistência armada anticomunista na Bulgária no pós-1944, com foco no movimento dos goryani, considerado pelo autor como a principal forma de oposição organizada ao processo de implantação do regime comunista no país.

Segundo Sharlanov, após o golpe de 9 de setembro de 1944, a Bulgária passa por um processo acelerado de sovietização, marcado por repressão política, eliminação de opositores, coletivização forçada e controle das instituições. Nesse contexto, surgem os goryani — grupos formados por camponeses, ex-militares, membros de partidos dissolvidos e indivíduos perseguidos politicamente, que se organizam em unidades armadas (чети) e atuam principalmente em áreas rurais e montanhosas.

O autor argumenta que essa resistência não foi episódica nem marginal, mas um fenômeno relativamente amplo, com centenas de participantes e diversas formações regionais, especialmente entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950. Esses grupos possuíam alguma estrutura interna, redes de apoio local e, em certos casos, conexões com tentativas de fuga para países vizinhos, como Grécia e Turquia.

Com base em documentos da Dărzhavna sigurnost (polícia secreta), o artigo descreve também os mecanismos de repressão utilizados pelo Estado, que incluíam:

  • perseguições sistemáticas
  • infiltração de agentes
  • operações militares em larga escala
  • prisões, execuções e envio para campos de trabalho

Sharlanov destaca que a linguagem dos documentos oficiais frequentemente classificava esses grupos como “bandidos”, refletindo a perspectiva ideológica do regime, e não necessariamente a natureza real dos envolvidos, que, segundo o autor, devem ser compreendidos dentro do quadro de resistência política ao totalitarismo.

O texto apresenta ainda casos específicos de formações locais, detalhando sua composição, área de atuação e trajetória. É nesse contexto que aparece a menção a grupos ativos na região de Plovdiv, incluindo o caso de um esquadrão formado em 1951, no qual são identificados nominalmente alguns integrantes — entre eles, Zdravko Kostadinov Damyanov.


Summary of Dinyu Sharlanov’s article
Dinyu Sharlanov’s article examines the armed anti-communist resistance in Bulgaria after 1944, focusing on the goryani movement, which the author considers the main form of organized opposition to the establishment of the communist regime in the country.

According to Sharlanov, after the coup of September 9, 1944, Bulgaria underwent a rapid process of Sovietization, marked by political repression, the elimination of opponents, forced collectivization, and control over institutions. In this context, the goryani emerged — groups made up of peasants, former military personnel, members of dissolved parties, and individuals persecuted for political reasons, who organized themselves into armed units (cheti) and operated mainly in rural and mountainous areas.

The author argues that this resistance was neither episodic nor marginal, but a relatively broad phenomenon, involving hundreds of participants and various regional formations, especially between the late 1940s and the early 1950s. These groups had some internal structure, local support networks, and, in certain cases, connections to escape attempts toward neighboring countries such as Greece and Turkey.

Based on documents from the Dărzhavna sigurnost (State Security / secret police), the article also describes the mechanisms of repression used by the state, including:

  • systematic persecution
  • infiltration of agents
  • large-scale military operations
  • arrests, executions, and deportation to labor camps

Sharlanov emphasizes that the language of official documents often classified these groups as “bandits,” reflecting the ideological perspective of the regime rather than the actual nature of those involved, who, according to the author, should be understood within the broader framework of political resistance to totalitarianism.

The text also presents specific cases of local formations, detailing their composition, area of operation, and trajectory. It is in this context that the article mentions groups active in the Plovdiv region, including the case of a squad formed in 1951, in which some members are identified by name — among them, Zdravko Kostadinov Damyanov.

O livro Zapisky za balgarskite stradania (1944–1989), em português “Registros dos sofrimentos do povo búlgaro (1944-1989)”, de Petko Ogoiski, oferece um amplo testemunho sobre a Bulgária sob o regime comunista, apresentando esse período como uma das fases mais duras da história contemporânea do país. Escrito por um autor que também foi vítima de perseguição política, o livro reúne memórias, nomes, episódios e registros de repressão com o objetivo de documentar os sofrimentos vividos por milhares de búlgaros entre a consolidação do poder comunista, a partir de 1944, e o fim do regime, em 1989.

Segundo Ogoiski, a transformação política ocorrida na Bulgária após 9 de setembro de 1944 não significou apenas uma mudança de governo, mas uma reorganização violenta do país sob uma lógica de partido único, fortemente influenciada pelo stalinismo. O autor descreve um processo de eliminação sistemática de opositores reais ou potenciais, que atingiu não apenas figuras políticas, militares e administrativas do antigo regime, mas também intelectuais, jornalistas, artistas, religiosos, camponeses, membros de organizações cívicas e cidadãos comuns considerados “inconfiáveis” pelo novo poder.

O livro dá destaque especial à repressão dos primeiros anos do regime, quando prisões, julgamentos políticos, execuções, desaparecimentos, campos de trabalho e deportações passaram a integrar a experiência concreta de grande parte da sociedade búlgara. Entre os instrumentos mais marcantes desse processo está o chamado Tribunal do Povo, apresentado por Ogoiski como um mecanismo central de condenação e destruição de antigas elites políticas e administrativas. Em sua leitura, a nova ordem não se limitou a substituir quadros do Estado: ela procurou desmontar, humilhar e apagar setores inteiros da vida pública búlgara.

Outro aspecto importante da obra é a ênfase na repressão intelectual e cultural. Ogoiski sustenta que a ditadura comunista restringiu severamente a liberdade de pensamento, de imprensa e de criação, submetendo a produção cultural à vigilância ideológica e marginalizando autores, artistas e profissionais que não se adequavam à linha oficial. Muitos teriam sido presos, silenciados, impedidos de publicar ou empurrados ao exílio, enquanto outros sofreram formas mais discretas, porém duradouras, de exclusão social e profissional.

Ao mesmo tempo, o livro mostra que a violência do regime não se limitou às formas mais explícitas de perseguição. O autor chama atenção também para as chamadas “repressões silenciosas”: carreiras interrompidas, invisibilização de méritos, vigilância cotidiana, bloqueio de oportunidades, estigmatização familiar e marginalização de pessoas cujas origens sociais, convicções políticas ou vínculos pessoais as tornavam suspeitas aos olhos do Estado. Nesse sentido, a obra retrata a Bulgária comunista como uma sociedade atravessada não apenas pelo medo da prisão ou da violência física, mas também por um sistema permanente de controle e limitação das possibilidades de vida.

A interpretação proposta por Ogoiski ajuda a compreender por que tantos búlgaros buscaram escapar desse contexto ao longo do século XX. Ao apresentar a Bulgária como um país marcado pela supressão das liberdades civis, pela perseguição política e pela destruição gradual de espaços de autonomia individual e coletiva, o livro oferece um pano de fundo importante para entender as trajetórias de exílio e refúgio. Nesse horizonte histórico se insere também a trajetória de Zdravko Kostadinov Damyanov, cuja fuga da Bulgária e reconstrução de vida no Brasil podem ser lidas como parte de um movimento mais amplo de ruptura com um regime percebido por muitos de seus contemporâneos como opressivo, vigilante e incompatível com a liberdade.

The book Zapisky za balgarskite stradania (1944–1989), translated into english as “Records of the Sufferings of the Bulgarian People (1944–1989)”, by Petko Ogoiski, offers a comprehensive account of Bulgaria under the communist regime, presenting this period as one of the most difficult chapters in the country’s contemporary history. Written by an author who was himself a victim of political persecution, the work brings together memories, names, episodes, and records of repression in order to document the suffering experienced by thousands of Bulgarians between the consolidation of communist power in 1944 and the end of the regime in 1989.

According to Ogoiski, the political transformation that took place in Bulgaria after September 9, 1944, was not merely a change of government, but a violent reorganization of the country under a single-party system, strongly influenced by Stalinism. The author describes a systematic process of eliminating real or potential opponents, affecting not only political, military, and administrative figures of the former regime, but also intellectuals, journalists, artists, religious figures, peasants, members of civic organizations, and ordinary citizens considered “unreliable” by the new authorities.

The book places particular emphasis on the early years of the regime, when imprisonment, political trials, executions, disappearances, labor camps, and deportations became part of the lived experience of large segments of Bulgarian society. Among the most significant instruments of repression was the so-called People’s Court, presented by Ogoiski as a central mechanism for the condemnation and dismantling of former political and administrative elites. In his view, the new order did not merely replace state structures; it sought to dismantle, humiliate, and erase entire sectors of Bulgarian public life.

Another key aspect of the work is its focus on intellectual and cultural repression. Ogoiski argues that the communist dictatorship severely restricted freedom of thought, expression, and artistic creation, subjecting cultural production to ideological surveillance and marginalizing authors, artists, and professionals who did not conform to the official line. Many were imprisoned, silenced, prevented from publishing, or pushed into exile, while others experienced more subtle yet long-lasting forms of social and professional exclusion.

At the same time, the book shows that the regime’s violence was not limited to overt acts of persecution. Ogoiski draws attention to what he describes as “silent repression”: interrupted careers, erasure of recognition, constant surveillance, restricted opportunities, family stigmatization, and the marginalization of individuals whose social background, political beliefs, or personal connections made them suspect in the eyes of the state. In this sense, communist Bulgaria is portrayed as a society shaped not only by fear of imprisonment or physical violence, but also by a pervasive system of control over everyday life.

Ogoiski’s interpretation helps explain why many Bulgarians sought to leave this context throughout the twentieth century. By presenting Bulgaria as a society marked by the suppression of civil liberties, political persecution, and the gradual erosion of spaces of individual and collective autonomy, the book provides important historical context for understanding trajectories of exile and refuge. Within this broader framework, the life of Zdravko Kostadinov Damyanov, whose escape from Bulgaria and subsequent life in Brazil can be understood as part of a wider movement of rupture, in which individuals sought to rebuild their lives beyond a regime perceived by many of their contemporaries as oppressive, surveillant, and incompatible with freedom.

“Stalinismo Búlgaro Revisitado”, por Ekaterina Nikova, é um artigo que contextualiza o processo de consolidação do regime comunista na Bulgária a partir de 1944, destacando a centralidade da repressão política, da eliminação de opositores e da reorganização da sociedade sob forte influência soviética. Ao evidenciar que a violência não foi episódica, mas estruturante desse período, o texto contribui para compreender o surgimento de movimentos de resistência armada, como os gorjani, no início da década de 1950 – contexto no qual se insere a trajetória de Zdravko Damianof.

“Bulgarian Stalinism Revisited,” by Ekaterina Nikova, contextualizes the process of consolidation of the communist regime in Bulgaria from 1944 onward, highlighting the central role of political repression, the elimination of opponents, and the reorganization of society under strong Soviet influence. By demonstrating that violence was not episodic but structural to this period, the article contributes to understanding the emergence of armed resistance movements, such as the gorjani, in the early 1950s – a context within which the trajectory of Zdravko Kostadinov Damyanov is situated.

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